O NASCIMENTO DA ARTE COMO RELIGIÃO
Por Janilson Ferreira Fialho Filho
O conceito de Arte como Religião (Kunstreligion) emerge na estética alemã pós-Kant, particularmente com o Romantismo (Schlegel, Novalis, Schelling) e, posteriormente, ganha contornos complexos em Hegel e Wagner.
Sua premissa fundamental é que a Arte se torna o veículo supremo para a manifestação do Absoluto, assumindo as funções de redenção, revelação do mistério e totalização da experiência humana que antes eram exclusivas da religião.
A Religião Perdida e o Resgate do Infinito
Para os pensadores românticos, o mundo moderno, regido pela ciência e pelo pensamento crítico (Kant), levou à fragmentação do saber e do espírito. O mistério, o sagrado e o infinito foram aprisionados pela razão.
Nesse contexto, a Arte, especialmente a música instrumental (a “música absoluta”), é vista como a única esfera capaz de:
Expressar o Inefável: A música, desvinculada da palavra e do conceito (como discutido por E.T.A. Hoffmann e os românticos), consegue comunicar diretamente a essência do universo ou o sentimento do infinito — algo que a linguagem conceitual falha em fazer.
Totalizar a Experiência: A Arte busca superar a divisão entre sensível e inteligível, entre finito e infinito, reunindo todas as esferas da existência em uma unidade orgânica.
O Culto e a Devoção
Quando a Arte assume o estatuto de religião, a relação do indivíduo com a obra se transforma em culto e devoção.
A Obra de Arte como Ícone: A obra não é mais um mero objeto de prazer estético (divertimento), mas um objeto de contemplação sagrada. O gênio artístico é visto como um intermediário ou um profeta que revela verdades universais.
A Sala de Concerto como Templo: Carl Dahlhaus, em A Ideia da Música Absoluta, descreve como a sala de concerto se transforma em um espaço sacralizado, onde o público se ajoelha (metaforicamente) perante a obra, exigindo silêncio e reverência para contemplá-la – uma atitude que antes era reservada aos templos religiosos.
A Música como Dogma: A forma pura da música instrumental torna-se o dogma ou o fundamento inquestionável da verdade estética.
A Arte como Religião em Hegel e Wagner
O conceito atinge seu ápice e sua crise em dois momentos cruciais:
A Crise e o Legado
A ideia da Arte como Religião, apesar de sua força no Romantismo, carrega em si a semente de sua própria crítica (o Fim da Arte). Se o Absoluto deve ser apreendido no conceito puro (Hegel) ou se a própria arte se torna a sua única justificação (esteticismo), a função redentora da arte se esgota.
O legado do conceito, contudo, é duradouro: ele elevou o estatuto da criação artística e é o motor conceitual por trás da autonomia estética que fundamenta a maior parte da música e das artes visuais modernas e contemporâneas.
Contudo, este conceito nos ajuda a entender como a música, ao se desvencilhar de propósitos externos (divertimento, ritos, moral, etc), se investiu em uma missão quase sagrada.
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