O ABSOLUTO NA MÚSICA: A COMPLEXA IDEIA DE CARL DAHLHAUS E O LEGADO ROMÂNTICO

A obra A Ideia da Música Absoluta, do musicólogo Carl Dahlhaus, transcende a mera definição musicológica para situar um dos debates estéticos mais influentes da Modernidade. O livro, como discutido por Marco Aurélio Werle e Reginaldo Rodrigues Raposo na palestra virtual Carl Dahlhaus: perspectivas sobre o absoluto na música, não busca um conceito estrito de música instrumental autônoma, mas sim rastrear o Leitmotiv (motivo condutor) do absoluto que permeou a estética, a filosofia e as artes no final do século XVIII e no século XIX. Longe de ser um termo unívoco, a “música absoluta” representa uma busca por autonomia e dignidade, tornando-se um reflexo das transformações da subjetividade moderna.

  1. A Música Absoluta como Autonomia Estética

O surgimento da ideia da música absoluta marca um rompimento estético crucial. Segundo o Professor Werle, essa nova perspectiva abandona a estética musical do século XVIII, na qual a música era frequentemente reduzida a entretenimento, utilidade social ou à mera função de ilustrar textos (estética do efeito). A busca pelo absoluto, nesse sentido, é sinônimo de autonomia: a música afirma seu valor em si mesma, como uma arte “em si mesma acabada” (Karl Philipp Moritz).

Dahlhaus demonstra que essa autonomia se manifesta em múltiplas faces. A música absoluta é vista como a primazia da música instrumental em contraste com a vocal; é elevada à categoria de metafísica, por ser capaz de expressar o infinito, o transcendente e o inalcançável (E.T.A. Hoffmann); e é, paradoxalmente, uma “linguagem pura”, uma lógica interna do som que se expressa para além das palavras. Essa multiplicidade de sentidos é o que confere ao ensaio de Dahlhaus seu caráter histórico-interpretativo, priorizando as divergências e as diferentes aplicações do termo em diversos autores românticos.

  1. O Contexto Filosófico e Artístico do Absoluto

A ambição da música de alcançar o absoluto não é um fenômeno isolado. O Professor Werle destaca que o ideal de totalidade emerge no rastro da Revolução Francesa, com a ascensão do ser humano como centro (a liberdade, a subjetividade) e o desejo de fundar o conhecimento em um princípio único. Na filosofia pós-kantiana (Fichte e Hegel), o absoluto é a tentativa de reduzir todo o saber a um fundamento último.

Esse movimento se espelha nas demais artes: na poesia, o Romantismo rejeita as regras fixas, elevando o romance à forma que captura o espírito da época; e na pintura, o debate sobre a Cor (Goethe) como essência da arte reflete a busca por um princípio primordial. Assim, a busca pela “música pura” ou “absoluta” é apenas a manifestação do desejo da subjetividade moderna de se expressar e totalizar o mundo através da arte.

  1. Beethoven, Wagner e o Conflito Dialético

Reginaldo Rodrigues Raposo detalha o conflito que define o ápice desse debate: a oposição entre os compositores Ludwig van Beethoven e Richard Wagner.

  • Beethoven: A recepção de sua música instrumental na década de 1820 solidifica o paradigma da música absoluta e sua conexão com a “metafísica romântica”.

  • Wagner: Ele, ironicamente, é quem cunhou o termo “música absoluta”, mas o faz em tom crítico. Para Wagner, a música autônoma é uma “infeliz etapa intermediária”, uma forma “abstrata” que se separou de suas raízes originais (dança e linguagem). Sua solução é a “Obra de Arte Total” (Gesamtkunstwerk), o Drama Musical, que visaria superar o herói beethoveniano e reunificar as artes.

Dahlhaus, no entanto, interpreta a crítica de Wagner não como uma negação total, mas como um momento dialético. Wagner vê a música absoluta como um degrau necessário, mas insuficiente, em um processo que só ele (através do drama musical) completaria. A questão da música absoluta, portanto, torna-se um campo de batalha entre a “autonomia do som” e a “totalidade do sentido”, remetendo à própria problemática hegeliana sobre o lugar da arte na história e na religião.

CONCLUSÃO

Em suma, a “ideia da música absoluta” em Dahlhaus não é uma categoria a ser definida e sim uma constelação de anseios estéticos, morais e filosóficos. Ela reflete o momento em que a arte, em um mundo dessacralizado, buscou assumir o papel do absoluto, tornando-se, para alguns, uma religião da arte. Compreender essa ideia é entender o impulso por liberdade e autonomia que moldou a modernidade artística, embora esse ideal tenha se fragmentado e se tornado problemático no século XX, como notado pelos professores Marco Aurélio Werle e Reginaldo Rodrigues Raposo.

REFERÊNCIA:

TOMÁS, Lia. Mesa: Carl Dahlhaus: perspectivas sobre o absoluto na música. [Vídeo]. YouTube, 26 out. 2021. 1h26min46s. Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=p_w1uJSsbMQ. Acesso em: 16 out. 2025.

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