Curso: A ideia de "Música Absoluta" em Carl Dahlhaus

 CASA DE WELLINGTON FARIAS

(PONTO DE CULTURA ROBERTO LUNA & ESCOLA DE MÚSICA GENALDO CUNHA LINS) 

Janilson Ferreira Fialho Filho

CURSO: A IDEIA DE “MÚSICA ABSOLUTA” EM CARL DAHLHAUS

  1. APRESENTAÇÃO DO CURSO 

O presente curso propõe uma imersão crítica e reflexiva na obra A Ideia de Música Absoluta de Carl Dahlhaus, um dos mais influentes musicólogos e pensadores da estética musical do século XX. A partir de sua teoria, o curso investiga como a música — especialmente a música instrumental — se tornou, entre os séculos XVIII e XIX, um símbolo da autonomia artística e uma forma privilegiada de expressão do espírito absoluto, conceito herdado da filosofia idealista alemã.

O ponto de partida do curso é a pergunta fundamental: o que significa pensar a música como “absoluta”? Dahlhaus mostra que essa noção não se refere apenas à ausência de texto, função ou programa, mas a uma transformação histórica e espiritual profunda: a passagem da música como serviço (religioso, social ou narrativo) para a música como arte pura, autossuficiente e metafísica. Nesse sentido, o curso abordará a relação entre música, filosofia e sociedade, explorando o modo como o Romantismo alemão — com pensadores como Kant, Hegel, Schopenhauer, Wackenroder, Tieck, Hoffmann e Hanslick — redefiniu o estatuto da arte musical, conferindo-lhe o papel de “religião da arte” e de via de acesso ao infinito.

  1. INTRODUÇÃO A TEORIA DE DAHLHAUS

O conceito de “música absoluta”, conforme analisado por Carl Dahlhaus, designa uma forma de arte musical que busca sua autonomia plena, isto é, o valor estético da música reside somente nela mesma, sem depender de texto, imagem, palavra, função prática ou representação externa. Dahlhaus mostra como essa ideia se consolidou historicamente entre o final do século XVIII e o século XIX, no contexto do Romantismo alemão, quando a música instrumental — especialmente a sinfonia — foi elevada a uma espécie de linguagem espiritual universal, capaz de expressar o que não pode ser dito em palavras.

Segundo Dahlhaus, o termo “música absoluta” expressa uma mudança de paradigma: a música deixa de ser vista como um meio de representar sentimentos, narrativas ou rituais religiosos, tornando-se um fim em si mesma. Essa noção se articula à ideia kantiana e hegeliana de absoluto, isto é, aquilo que existe “em si e por si”, independente de relações externas. Assim, a música é entendida como a manifestação sensível do espírito absoluto, uma espécie de religião da arte — ideia que, segundo Dahlhaus, tem raízes no pensamento de Wackenroder, Tieck e Hoffmann, e culmina no culto burguês a Beethoven e Bach como figuras “sagradas” do espírito musical alemão.

Para E. T. A. Hoffmann, a música instrumental é o meio mais elevado da expressão espiritual, pois expressa “o indizível”. Wagner, retomando essa tradição, influenciado por Schopenhauer, afirma que a essência da música consiste em “exprimir em sons aquilo que não pode ser dito em palavras”. A partir daí, a música instrumental é sacralizada — uma arte “pura”, “sem objeto”, “sem função”, que se volta para a própria interioridade do som. Dahlhaus observa que essa concepção confere à música um status metafísico, transformando o concerto público em um rito estético, herdeiro simbólico do culto religioso (como também analisa Otávio Paz ao falar da “religião da arte”).

Contudo, Dahlhaus destaca que essa autonomia estética não pode ser compreendida apenas por fatores filosóficos: ela também resulta de uma transformação social e histórica. A partir do século XVIII, gêneros antes privados — como o quarteto ou a sonata — passam a ser executados em espaços públicos, mudando o papel social da música. Assim, a “emancipação estética” da música coincide com sua emancipação social, isto é, com o surgimento da burguesia como classe “culta” e com a criação de uma “cultura de concerto”.

Por fim, Dahlhaus contrapõe a música absoluta à música programática (ligada a narrativas ou imagens), mas reconhece que ambas coexistem. Para ele, mesmo obras com caráter expressivo ou programático (como as de Wagner e Mahler) ainda podem preservar um “núcleo absoluto”, pois o verdadeiro conteúdo da música não é o programa, e sim a sua forma sonora em movimento — o som que se torna espírito. Assim, a música absoluta é, em essência, uma reflexão sobre o que há de mais puro e espiritual na arte sonora: o poder de exprimir o inexprimível, de fazer do som um pensamento.

Em resumo, a ideia de música absoluta em Carl Dahlhaus pode ser sintetizada em três eixos:

  • Autonomia estética: a música é um fim em si, sem função prática, narrativa ou religiosa.

  • Metafísica romântica: o som é expressão do absoluto espiritual, uma “religião da arte”.

  • História e sociedade: a autonomia da música reflete a emancipação cultural da burguesia e o nascimento da estética moderna.

Essa concepção, como conclui Dahlhaus, não é apenas um conceito musical, mas um símbolo filosófico da modernidade, em que o homem busca no som — e não mais em Deus — a manifestação do absoluto.

  1. FINALIDADE DO CURSO

O curso tem como finalidade aprofundar a compreensão teórica, estética e filosófica da noção de “música absoluta”. Ao longo dos encontros, discutiremos temas centrais como:

  • A autonomia estética e a “religião da arte”;

  • O conceito de metafísica da música instrumental;

  • A relação entre música absoluta e música programática;

  • A crítica contemporânea ao ideal de arte pura e sua permanência na escuta moderna.

Mais do que uma revisão teórica, este curso pretende provocar um olhar filosófico sobre a escuta, convidando os participantes a compreender a música não apenas como forma sonora, mas como experiência estética e espiritual — um espaço onde o ser humano busca o sentido do indizível do som em si.

REFERÊNCIA:

DAHLHAUS, Carl. La idea de la música absoluta. Barcelona: Idea Books, 1999.

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