A Metafísica da Música Instrumental (Música Absoluta) só pôde surgir a partir do momento em que a música foi libertada de suas obrigações funcionais e representacionais. A tabela abaixo lista os principais períodos que a antecederam (e o início de sua emergência), destacando o tipo de música que era dominante e as funções não-autônomas que ela geralmente cumpria.
Período Histórico | Tipo de Música Dominante | Função Principal (Antes do Absoluto) | Relação com Texto/Programa |
Idade Média (c. 500 – 1400) | Canto Gregoriano, Música Sacra, Polifonia (Organum). | Litúrgica, ritualística, didática (para fixar a doutrina). | Totalmente subordinada ao texto litúrgico (latim). |
Renascença (c. 1400 – 1600) | Missas, Motetos, Madrigais, Canções (música vocal polifônica). | Litúrgica e de entretenimento social (madrigais). | Subordinada ao texto para expressar ou "pintar" o sentido da poesia (madrigalismo). |
Barroco (c. 1600 – 1750) | Ópera, Oratório, Cantata; Concerto Grosso, Suítes. | Dramática (Ópera), afetiva (expressão de affetti), funcional (música de corte, igreja). | Predominantemente funcional e representacional. A música instrumental frequentemente imitava o drama, a dança ou estava ligada à Retórica. |
Classicismo (c. 1750 – 1820) | Sinfonia, Sonata, Quarteto de Cordas. | Social, entretenimento refinado, comunicação de afetos e estados de espírito. | Emergência da autonomia, mas ainda regida por regras. O conceito era de mimese dos afetos (imitação de sentimentos) e uso de regras formais fixas (poéticas). |
Romantismo Inicial (c. 1800 – 1830) | Sinfonia (Beethoven), Lied, Música de Câmara. | Início da Metafísica Instrumental. Busca expressar o “Infinito” e o “Sublime” (E.T.A. Hoffmann, Wackenroder). | Rompimento: A música instrumental passa a ser vista como a forma de arte mais elevada e pura, superior ao texto. |
O Salto Estético: Do Afeto ao Absoluto
A grande diferença reside na transição do “Classicismo” para o “Romantismo” (marcada por Beethoven):
Antes do Absoluto (Classicismo): O objetivo era a mimese dos afetos. A música deveria imitar ou comunicar estados emocionais específicos de forma clara e equilibrada, seguindo regras formais (poéticas).
Com a Música Absoluta (Romantismo): O objetivo se torna a Metafísica do Infinito. A música não imita mais um afeto, mas aquilo que é Absoluto e Inefável. Essa música é valorizada justamente por não ter um significado fixo e ser livre de propósitos externos.
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