AULA: BREVE EXPOSIÇÃO SOBRE A HISTÓRIA E AS CARACTERÍSTICAS DE ALGUNS GÊNEROS DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA
CASA DE WELLINGTON FARIAS
(PONTO DE CULTURA ROBERTO LUNA & ESCOLA DE MÚSICA GENALDO CUNHA LINS)
Janilson Ferreira Fialho Filho
BREVE EXPOSIÇÃO SOBRE A HISTÓRIA E AS CARACTERÍSTICAS DE ALGUNS GÊNEROS DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA
APRESENTAÇÃO
Hoje iremos explorar alguns gêneros da música popular brasileira, apresentando um panorama histórico e suas características estruturais. O objetivo é mostrar como diferentes regiões e contextos sociais do Brasil contribuíram para a diversidade musical que conhecemos atualmente.
Vale ressaltar que não iremos explorar todos os gêneros da música brasileira, mas apenas alguns exemplos representativos, com foco em suas estruturas, formas e tradições, para facilitar a compreensão de como a música brasileira evoluiu e se transformou ao longo do tempo. Afinal, para apresentar todos os gêneros musicais — de todas as regiões — do Brasil seria necessário um curso de extensão a longo prazo focado nessa tarefa, visto que o nosso país detém uma diversidade cultural grandiosa.
Deste modo, selecionamos alguns gêneros de diferentes épocas e origens, como o choro, o samba, a bossa nova e a música popular do Nordeste (baião, xote, xaxado, forró, frevo, maracatu, coco e repente) para termos apenas uma introdução à música brasileira nesta aula. Cada um desses estilos possui elementos rítmicos, harmônicos e melódicos próprios, além de uma instrumentação característica que reflete suas influências culturais, sejam elas africanas, europeias ou indígenas. Assim, vamos direto ao ponto, vamos conhecer a riqueza da nossa música.
CHORO (SÉCULO XIX)
HISTÓRIA:
O choro surgiu no Rio de Janeiro, por volta de 1870, como uma forma brasileira de interpretar gêneros europeus, sobretudo a polca, a valsa e a mazurca, que já eram populares no país no período imperial. Os músicos cariocas, em sua maioria de origem popular, passaram a tocar essas danças com maior liberdade rítmica, adicionando síncopes e variações melódicas de influência africana. Dessa mistura, nasceu o que se chamou de “choro”, inicialmente entendido como uma maneira de tocar — e só depois consolidado como um gênero musical próprio.
O choro é considerado o primeiro gênero musical urbano do Brasil, diretamente ligado ao processo de formação cultural da cidade do Rio de Janeiro, onde conviviam influências africanas, indígenas e europeias. Com o tempo, o gênero deixou de ser apenas uma adaptação de danças estrangeiras e ganhou identidade própria, consolidando-se como tradição instrumental brasileira.
PRINCIPAIS NOMES LIGADOS A HISTÓRIA DO CHORO:
Chiquinha Gonzaga (1847–1935): foi a pioneira nesse estilo; ela foi compositora de polcas e tangos que ajudaram a formar a linguagem do choro.
Ernesto Nazareth (1863–1934): foi um compositor erudito-popular; ele foi considerado um dos grandes mestres da transição entre polca, maxixe e choro.
Joaquim Callado (1848–1880): este flautista é apontado como o “pai do choro”, por liderar os primeiros conjuntos e regionais de chorões, além disso, ele é o compositor de Flor Amorosa.
Pixinguinha (1897–1973): foi a figura central na consolidação do choro, além de ser o compositor de grandes clássicos como Carinhoso e Rosa, além de renovar a instrumentação com a inclusão de metais.
Jacob do Bandolim (1918–1969): responsável por uma das maiores coleções de choros e pela valorização do gênero no século XX; ele é autor de clássicos como Noites Cariocas, por exemplo.
Outros nomes de destaque: Waldir Azevedo (autor de Brasileirinho), Radamés Gnattali, Abel Ferreira, Altamiro Carrilho, entre muitos.
O choro também influenciou diversos outros estilos brasileiros, como o samba e a própria MPB, sendo até hoje praticado em rodas de choro por todo o país.
ESTRUTURA TEÓRICA:
O choro possui características formais e musicais próprias que o diferenciam tanto da música erudita quanto dos demais gêneros populares:
Forma musical:
Geralmente em forma de rondó ou múltiplas seções (ex.: A-B-A-C-A, A-B-C-D).
Cada parte (ou “parte temática”) costuma ter 16 compassos.
As modulações entre seções são frequentes, trazendo variedade harmônica.
Ritmo e compasso:
Normalmente rápido ou vivo, mas também há choros lentos (choro-canção).
Uso intenso da síncope, característica herdada da influência africana.
Compassos binários (2/4) ou quaternários (4/4).
Harmonia:
Riqueza harmônica com frequentes modulações para tons vizinhos.
Uso de dominantes secundárias, substituições e acordes diminutos.
Muitas peças alternam entre tonalidades maiores e menores.
Melodia:
Lírica, mas também virtuosística, exigindo habilidade instrumental.
Uso de ornamentos, arpejos e escalas rápidas.
Muitas vezes dialoga com a linha do contraponto no acompanhamento.
Instrumentação:
Cavaquinho: marca o ritmo e fornece apoio harmônico.
Violão de 6 e 7 cordas: base harmônica e contracantos; o violão de 7 cordas introduz o baixo melódico.
Flauta e bandolim: principais instrumentos solistas do gênero.
Mais tarde, com Pixinguinha, passaram a ser usados também saxofones, clarinetes e outros sopros.
IMPORTÂNCIA CULTURAL:
O choro foi e continua sendo um espaço de encontro musical, conhecido pelas “rodas de choro”, que funcionam como prática coletiva e oral de transmissão da tradição. Ele serviu como “escola” para gerações de músicos brasileiros, formando a base da linguagem instrumental da MPB.
Além disso, o choro é símbolo da hibridização cultural brasileira: une a sofisticação harmônica europeia, o balanço rítmico africano e a sensibilidade melódica popular em uma síntese genuinamente nacional.
SAMBA (INÍCIO DO SÉCULO XX)
HISTÓRIA:
O samba é considerado o gênero musical mais emblemático do Brasil. Ele surgiu no Rio de Janeiro no início do século XX, a partir da fusão de ritmos afro-baianos trazidos por migrantes nordestinos (como o samba de roda da Bahia) com gêneros urbanos como o maxixe e a polca.
O marco simbólico de sua origem é a gravação de Pelo Telefone (1917), de Donga e Mauro de Almeida, considerada o primeiro samba registrado em disco. Contudo, o samba já existia antes, cultivado em espaços de resistência cultural negra, como as “tias baianas” (Tia Ciata, Tia Perciliana, Tia Amélia), que promoviam festas regadas a batuques, comida e devoção religiosa.
Durante as décadas de 1920 e 1930, o samba se consolidou como música nacional, com apoio da nascente indústria fonográfica, do rádio e do Estado, principalmente no período de Getúlio Vargas, que usou o gênero como símbolo da identidade cultural brasileira.
O samba se ramificou em diversos subgêneros, como o samba-canção, o samba-enredo, o samba de breque o partido-alto e, mais tarde, o pagode. Hoje, continua vivo tanto em rodas de samba quanto nos desfiles de carnaval.
PRINCIPAIS NOMES DA HISTÓRIA DO SAMBA:
Donga e Pixinguinha: primeiros registros e arranjos.
Noel Rosa (1910–1937): um dos maiores compositores, responsável pela integração entre samba e poesia urbana.
Cartola (1908–1980): fundador da Mangueira, autor de sambas clássicos como As Rosas Não Falam.
Ary Barroso (1903–1964): autor de Aquarela do Brasil, que internacionalizou o samba-exaltação.
Dorival Caymmi (1914–2008): trouxe o lirismo baiano e o vínculo com o mar.
Grandes nomes da história do samba do século XX e XXI: Paulinho da Viola, Clara Nunes, Martinho da Vila, Zeca Pagodinho, Beth Carvalho, Dona Ivone Lara.
ESTRUTURA TEÓRICA:
Ritmo e compasso:
Predomínio do compasso binário (2/4).
Forte uso de síncopes e contratempos, criando o balanço característico.
A marcação do surdo no tempo forte (tônica) e do pandeiro/tamborim nos contratempos gera a base rítmica.
Forma:
Estrutura baseada em estrofes (versos) alternadas com refrões (coros).
Pode aparecer em forma de chamada e resposta (solista + coro).
Muitas vezes simples (A-B-A), mas com variações criadas pelos improvisos do partido-alto.
Harmonia:
Influência da música europeia, com tonalidades maiores e menores.
Uso de progressões simples (I–IV–V) e, em sambas mais sofisticados, modulações e acordes alterados.
No samba-canção (mais próximo da bossa nova), aparecem harmonias mais elaboradas.
Melodia:
Geralmente cantada, em tessitura média, permitindo participação coletiva.
Explora intervalos curtos, repetição e improviso melódico.
As letras variam entre lirismo, humor, crítica social, exaltação e cotidiano.
Instrumentação típica:
Percussão: surdo, pandeiro, tamborim, cuíca, reco-reco, agogô, caixa de guerra (essa instrumentação percussiva leva o nome no exterior de samba de batuque ou batucada).
Harmonia: cavaquinho, violão de 6 e 7 cordas.
Vozes: solista e coro (resposta).
Em escolas de samba, soma-se uma bateria com dezenas de instrumentos de percussão.
IMPORTÂNCIA CULTURAL:
O samba foi mais que um gênero musical: tornou-se símbolo da identidade brasileira e espaço de expressão popular e afrodescendente. Ele é indissociável do carnaval carioca, mas também ganhou dimensões líricas e existenciais com compositores como Cartola e Paulinho da Viola.
Mais que música, o samba é uma prática social: está presente nas rodas de samba, nos quintais, nos desfiles, nos bares e nas comunidades. Ele expressa tanto alegria coletiva quanto dor e resistência, sendo, portanto, uma das formas mais autênticas de manifestação da cultura popular brasileira.
BOSSA NOVA (ANOS 1950)
HISTÓRIA:
A bossa nova surgiu no Rio de Janeiro, no final da década de 1950, entre jovens músicos de classe média que buscavam renovar o samba com maior sofisticação harmônica e influência do jazz norte-americano. O marco inicial geralmente apontado é o lançamento do disco Chega de Saudade (1959), de João Gilberto, que consolidou o estilo.
O movimento nasceu em encontros informais em apartamentos da zona sul carioca, especialmente em Copacabana e Ipanema. Foi nesse ambiente que músicos como João Gilberto, Tom Jobim e Vinicius de Moraes criaram uma estética intimista, distante do samba carnavalesco, mais voltada para pequenas audiências.
A bossa nova rapidamente ganhou projeção internacional, especialmente nos Estados Unidos, com o sucesso de canções como Garota de Ipanema (1962). Músicos como Stan Getz e Charlie Byrd ajudaram a difundir o gênero, e artistas brasileiros como Nara Leão, Baden Powell, Roberto Menescal e Carlos Lyra deram continuidade ao movimento.
ESTRUTURA TEÓRICA:
Ritmo e compasso:
Deriva do samba, mas em andamento mais suave e cadenciado.
Uso frequente do compasso binário (2/4) e do quaternário (4/4).
A batida característica criada por João Gilberto no violão mistura a marcação do surdo do samba (nos baixos) com a síncope da percussão (nas cordas médias/agudas).
Harmonia:
Grande sofisticação, com influência direta do jazz.
Uso de acordes com 7ª, 9ª, 11ª e 13ª, dissonâncias e progressões complexas.
Modulações sutis e cadências mais elaboradas que no samba tradicional.
Melodia:
Intimista, frequentemente em registro médio e suave.
Predomínio de linhas melódicas curtas e próximas da fala.
O canto de João Gilberto inaugurou o estilo “despretensioso”, quase sussurrado, contrastando com o canto expansivo da época.
3.2.4 Forma:
Estrutura da canção popular (estrofes e refrões), mas com variações harmônicas e melódicas.
Muitas composições têm caráter impressionista, explorando atmosferas sonoras.
3.2.5 Instrumentação:
Violão: tocando com a batida característica, é o instrumento central deste estilo.
Instrumentos tradicionais: piano, contrabaixo acústico, bateria com vassourinhas, flauta e violino aparecem em arranjos sofisticados.
Outros instrumentos: nos shows e gravações internacionais, somaram-se saxofones e guitarras elétricas.
IMPORTÂNCIA CULTURAL:
A bossa nova transformou a imagem do Brasil no exterior, projetando uma estética moderna e refinada. Foi associada ao “espírito de Ipanema” e ao Brasil urbano e cosmopolita dos anos 1950 e 1960, em sintonia com o projeto desenvolvimentista de Juscelino Kubitschek.
Apesar de criticada por parte da esquerda na época por ser considerada “alienada” em relação às questões sociais, a bossa nova abriu caminhos para a futura MPB dos anos 1960, que uniria sofisticação musical com engajamento político.
Entre suas obras mais emblemáticas estão: Chega de Saudade (Tom Jobim e Vinicius de Moraes), Desafinado (Tom Jobim e Newton Mendonça), Garota de Ipanema (Tom Jobim e Vinicius de Moraes) e Samba de Uma Nota Só (Tom Jobim e Newton Mendonça).
A bossa nova permanece como uma das maiores contribuições do Brasil à música mundial, influenciando gerações de músicos dentro e fora do país.
MÚSICA POPULAR DO NORDESTE
HISTÓRIA:
A música nordestina tem raízes profundas nas tradições orais e populares do sertão e do litoral. Desde o período colonial, festas religiosas (católicas e afro-brasileiras), cantos de trabalho e práticas de lazer rural alimentaram a cultura musical da região. Os cantos de vaqueiro, as incelenças (cantos fúnebres), os desafios dos repentistas e as danças festivas (como o coco e o baião primitivo) compõem o alicerce dessa tradição.
O século XX marcou a difusão nacional dessa música com a ascensão de artistas como Luiz Gonzaga, que, a partir dos anos 1940, popularizou o baião e o forró, levando a sonoridade nordestina para os grandes centros urbanos do Sudeste do país. Mais tarde, nomes como Jackson do Pandeiro (o “Rei do Ritmo”), Dominguinhos, Marinês, Elba Ramalho, Zé Ramalho, Alceu Valença e Fagner ampliaram esse universo, ora dialogando com a tradição rural, ora misturando-a com a MPB urbana.
ESTRUTURA TEÓRICA GERAL:
A música popular nordestina é marcada por ritmos sincopados, forte presença da percussão (zabumba, triângulo, pandeiro), e uso de escalas e modos que remetem tanto à música europeia (como o modo menor harmônico) quanto a influências árabes e africanas.
BAIÃO
História:
O baião é considerado o gênero nordestino mais influente do século XX. Sua consolidação se deu nos anos 1940 com Luiz Gonzaga (1912–1989) e o letrista Humberto Teixeira (1915–1979). A música “Baião” (1946) marcou o início da difusão nacional. O baião nasce da fusão entre cantos e danças do sertão (como o lundu e o coco) com estruturas harmônicas urbanas. Tornou-se um símbolo da identidade nordestina, especialmente em tempos de migração em massa para o Sudeste.
Principais nomes da história do baião:
Luiz Gonzaga: considerado o “Rei do Baião”, é autor de clássicos como O cheiro da Carolina, Baião e Vem Morena.
Humberto Teixeira: parceiro letrista de Luiz Gonzaga que escreveu Asa Branca e Assum Preto.
Dominguinhos: sanfoneiro e compositor que renovou o estilo, e que escreveu obras como Eu só quero um xodó, Lamento sertanejo e De volta pro aconchego.
Grandes nomes da história do baião: Elba Ramalho, Gilberto Gil (em algumas fases) e Zé Ramalho também exploraram o baião.
Estrutura teórica:
Forma: geralmente binária simples (estrofe–refrão).
Ritmo: compasso 2/4; utiliza-se uma célula rítmica bastante característica; o tempo é marcado pela zabumba (grave no 1º tempo, estalo no 2º tempo).
Instrumentação: sanfona, zabumba, pandeiro e triângulo formam a base. Violão e viola podem aparecer.
Harmonia: simples, predominando os graus I, IV e V; no entanto, compositores como Dominguinhos introduziram progressões mais sofisticadas.
Melodia: influenciada pelos modos menores, a escala nordestina (ou também chamada de “escala indígena”) possui tensões que lembram o modo mixolídio e dórico.
XOTE
História:
O xote veio originalmente da Europa (da dança alemã Schottische) e foi abrasileirado no Nordeste no século XIX, tornando-se parte da tradição do forró. Popularizou-se junto ao baião, mas com andamento mais lento e dança marcada por passos a dois.
Principais nomes da história do xote:
Trio Nordestino e Os 3 do Nordeste mantiveram o xote vivo.
Dominguinhos e Fagner também compuseram belos xotes.
Na MPB, artistas como Alceu Valença e Elba Ramalho regravaram xotes tradicionais (cf. O xote das meninas, de Luiz Gonzaga, na voz de Alceu Valença).
Estrutura teórica:
Ritmo: compasso 2/4, mais lento que o baião.
Instrumentação: sanfona, zabumba e triângulo; às vezes violão.
Melodia: lírica, muitas vezes romântica.
Harmonia: simplicidade tonal, mas frequentemente modulando entre maior e menor para reforçar a dramaticidade.
XAXADO
História:
O xaxado nasceu no sertão pernambucano, associado aos cangaceiros de Lampião no início do século XX. Era uma dança masculina, feita com passos arrastados (daí o nome, que imita o som de arrastar de sandálias de couro no chão). Mais tarde, foi incorporado ao forró e difundido como gênero.
Principais nomes da história do xaxado:
Luiz Gonzaga ajudou a divulgar.
Marinês e Jackson do Pandeiro também gravaram xaxados (cf. a música Sebastiana, de Jackson do Pandeiro).
O grupo Asa Branca e Trio Nordestino consolidaram o estilo no circuito de forró.
Estrutura teórica:
Ritmo: compasso binário (2/4), andamento vivo.
Instrumentação: semelhante ao baião, mas com maior ênfase no arrastar percussivo da zabumba.
Forma: simples, com versos curtos e refrão repetitivo.
Caráter: dançante e marcial, evocando o espírito dos bandos de cangaceiros.
FORRÓ
História:
O forró é hoje o nome mais popular para designar a festa nordestina e seu conjunto de ritmos (baião, xote, xaxado etc.), mas também se consolidou como gênero musical próprio. Surgiu como designação genérica nos anos 1940–50, a partir da difusão de Luiz Gonzaga, mas ganhou autonomia estilística principalmente no forró pé de serra (tradicional) e, mais recentemente, no forró eletrônico/universitário.
Principais músicos:
Luiz Gonzaga: base fundadora.
Jackson do Pandeiro: pioneiro no ritmo.
Dominguinhos: renovação melódica.
No contemporâneo: Elba Ramalho, Fagner, Alceu Valença; no eletrônico, grupos como Mastruz com Leite e Aviões do Forró.
Estrutura teórica:
Ritmo: compasso 2/4, andamento variado (do moderado ao muito acelerado).
Instrumentação: trio clássico – sanfona, zabumba, triângulo; no eletrônico, teclados, guitarras e bateria.
Forma: estrofe–refrão, letra de fácil memorização.
Harmonia: em geral simples, mas Dominguinhos trouxe acordes mais sofisticados, aproximando do jazz.
FREVO
História:
Nascido em Recife no final do século XIX, o frevo é ligado diretamente ao carnaval pernambucano. A palavra vem de “ferver”, refletindo o ritmo quente e acelerado. Mistura marcha, polca e dobrado militar, com influência de capoeiras que faziam acrobacias nas ruas. Em 2012, foi declarado Patrimônio Imaterial da Humanidade pela UNESCO.
Principais músicos:
Capiba e Nelson Ferreira: foram grandes compositores clássicos do frevo; Capiba, por exemplo, é autor de De chapéu de Sol Aberto e A Mulher Que Eu Queria.
Spok Frevo Orquestra: renovação contemporânea.
Alceu Valença e Elba Ramalho: também interpretaram frevos célebres (cf. a canção Frevo Mulher, de Zé Ramalho).
Estrutura teórica:
Ritmo: compasso binário 2/4 ou quaternário 4/4, andamento extremamente rápido.
Instrumentação: orquestra de metais e percussão (clarinete, trompete, trombone, saxofone, caixa, bumbo, pratos).
Forma: geralmente instrumental, mas há frevos-canção com letra.
Harmonia: mais rica que no forró, com modulações e cromatismos herdados da música erudita.
Caráter: explosivo, festivo, com melodia incisiva e sincopada.
MARACATU
História:
O maracatu é uma manifestação afro-brasileira originada em Pernambuco, ligada ao coroamento de reis e rainhas do Congo, práticas do catolicismo popular e religiões de matriz africana. Existem dois principais tipos: maracatu nação (ou de baque virado), mais ligado aos terreiros, e maracatu rural (ou de baque solto), ligado às festas do interior.
Principais músicos:
Grupos tradicionais: Mestre Salustiano e Anderson Miguel, Nação Porto Rico, Nação Leão Coroado são responsáveis por manter a tradição do maracatu viva (cf. essa entrevista de Mestre Salustiano).
Nação Zumbi (Chico Science e o manguebeat): foi responsável por revitalizar o maracatu nos anos 1990, com músicas como Maracatu Atômico, Maracatu de Tiro Certeiro e Da Lama ao Caos.
Pesquisadores como o Mestre Walter de França: conservam e divulgam a cultura do maracatu.
Estrutura teórica:
Ritmo: polirrítmico, com forte base percussiva.
Instrumentação: alfaias (tambores graves), gonguê (metal), caixa, agbê, agbô, ganzá.
Forma: canto-resposta, com versos curtos entoados pelo mestre e respondidos pelo coro.
Harmonia: praticamente ausente, é um gênero predominantemente rítmico e melódico-vocal.
Caráter: ritualístico, majestoso e coletivo.
COCO
História:
O coco é uma dança e gênero musical tradicional, de raízes afro-indígenas, muito comum em Alagoas, Paraíba, Rio Grande do Norte e Pernambuco. Associado a rodas, trabalhos coletivos e festas populares, lembra o batuque africano misturado com cantos de chamada e resposta.
Principais músicos:
Jackson do Pandeiro: grande divulgador do coco no rádio.
Dona Selma do Coco: referência da tradição oral.
Chico César: mais recentemente incorporou elementos do coco em suas composições.
Estrutura teórica:
Ritmo: geralmente binário (2/4), marcado pela batida do pandeiro e do ganzá.
Instrumentação: pandeiro, ganzá, triângulo, tambores.
Forma: canto responsorial – solista e coro.
Harmonia: muito simples ou ausente, prevalecendo percussão e voz.
Caráter: comunitário, repetitivo e cadenciado, feito para dançar em roda.
REPENTE E EMBOLADA
História:
O repente é uma poesia improvisada cantada por dois cantadores, acompanhada geralmente pela viola. É tradição do sertão nordestino, ligada aos desafios e duelos verbais. Já a embolada é mais urbana e acelerada, cantada com pandeiro, em versos improvisados e ritmados.
Principais músicos:
Repente: Pinto do Monteiro, Otacílio Batista, Ivanildo Vila Nova.
Embolada: Caju & Castanha, Pedro Bandeira.
Estrutura teórica:
Ritmo: no repente, métrica fixa (sextilhas, décimas) com viola marcando o compasso; na embolada, ritmo rápido em 2/4, marcado pelo pandeiro.
Forma: improviso; o conteúdo é mais importante que a harmonia.
Instrumentação: viola (repente), pandeiro (embolada).
Caráter: competitivo, humorístico e crítico, envolvendo interação direta com o público.
CONCLUSÃO
Ao longo desta aula, pudemos perceber que a música popular brasileira é marcada por uma incrível riqueza cultural e diversidade regional. Cada gênero estudado apresenta uma identidade própria, refletindo as experiências sociais, históricas e culturais de seus criadores.
O choro, por exemplo, mostra a fusão de influências europeias e africanas no Rio de Janeiro do século XIX, enquanto o samba evidencia a resistência cultural e a celebração afro-brasileira. A bossa nova trouxe sofisticação harmônica e internacionalização e os ritmos nordestinos demonstram a força da tradição popular.
Esses exemplos demonstram que a música brasileira não é apenas um mero entretenimento, mas também uma expressão cultural e histórica, permitindo que compreendamos melhor a diversidade e a complexidade da sociedade brasileira.
REFERÊNCIAS:
ANDRADE, Mário de. Pequena história da música. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1942.
BAIA, S. F. A historiografia da música popular no Brasil (1971-1999). Tese de doutorado em História Social. São Paulo: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, 2010.
CAMPOS, Augusto de. Balanço da Bossa. São Paulo: Perspectiva, 1968.
CASTRO, Ruy. Chega de Saudade. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.
CAZES, Henrique. Choro – do quintal ao Municipal. São Paulo: Editora 34, 2010.
DA MATTA, Roberto. Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. 6ª Ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.
FERNANDES, Cláudia G.; BARROS, Maira R. R. A história e a historiografia da música brasileira: o estudo de caso da música nordestina. Estudos Avançados, São Paulo, v. 34, n. 98, p. 305-326, jan./abr. 2020. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ea/a/zWyFGZNcnm9dw6v4dGnjvjN/?format=html&lang=pt. Acesso em: 1 out. 2025.
FREIRE, Kleython. Artigo: Música Nordestina Contemporânea: Resistência e Identidade Cultural. Brasil de Fato, [S. l.], 2 out. 2019. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2019/10/02/artigo-or-musica-nordestina-contemporanea-resistencia-e-identidade-cultural/. Acesso em: 1 out. 2025.
FENERICK, José Adriano. Samba: tradição e modernidade na música popular brasileira. Resgate: Revista Interdisciplinar de Cultura, Campinas, SP, v. 15, n. 1, p. 83–94, 2007. DOI: 10.20396/resgate.v15i16.8645652. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/resgate/article/view/8645652. Acesso em: 3 out. 2025.
MACKENZIE. Música nordestina: conheça a história e a importância dela. Blog Mackenzie, 24 fev. 2023. Disponível em: https://www.google.com/amp/s/blog.mackenzie.br/vestibular/atualidades/musica-nordestina-conheca-a-historia-e-a-importancia-dela/amp/. Acesso em: 1 out. 2025.
MEMORIAL DA DEMOCRACIA. Era de Ouro da Música Popular. [S. l.], [20--?]. Disponível em: https://www.memorialdademocracia.com.br/cultura/era-de-ouro. Acesso em: 2 out. 2025.
MUNIZ, Erika. O samba é a célula-mater da música popular brasileira. Continente, Recife, ago. 2020. Disponível em: https://revistacontinente.com.br/secoes/entrevista/ro-samba-e-a-celula-mater-da-musica-popular-brasileirar. Acesso em: 2 out. 2025.
PINTO, Alexandre Gonçalves. O choro – reminiscências dos chorões antigos. Rio de Janeiro: Typ. Glória, 1936.
SEVERIANO, Jairo. Uma História da Música Popular Brasileira – das origens à modernidade. São Paulo: Editora 34, 2009.
SILVA, Daniel Neves. Samba: produto do Morro. Mundo Educação - Uol, [S. l.], [2025?]. Disponível em: https://mundoeducacao.uol.com.br/carnaval/samba-produto-morro.htm. Acesso em: 2 out. 2025.
TINHORÃO, José Ramos. Pequena história da música popular — da modinha à lambada. São Paulo: Art Editora, 1991.
_____________________. História social da música popular brasileira. ‐ São Paulo: Ed. 34, 1998.
WISNIK, José Miguel. O Som e o Sentido – uma outra história das músicas. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
Comentários
Postar um comentário