Aula sobre "A Estonteante velocidade da música maximalista — Música e Física: elos e paralelos", de Flo Menezes
CASA DE WELLINGTON FARIAS
(Ponto de Cultura Roberto Luna & Escola de Música Genaldo Cunha Lins)
RESUMO DO TEXTO “A ESTONTEANTE VELOCIDADE DA MÚSICA MAXIMALISTA – MÚSICA E FÍSICA: ELOS E PARALELOS”
Janilson Ferreira Fialho Filho
SOBRE O AUTOR
Flo Menezes (São Paulo, 1962) é um dos mais destacados compositores e pesquisadores brasileiros da música contemporânea, reconhecido especialmente por sua produção em música eletroacústica¹ e por sua atuação como professor na Unesp, onde fundou o Studio PANaroma. Discípulo de Karlheinz Stockhausen² na Alemanha, desenvolveu uma estética própria que define como maximalista, em oposição ao minimalismo, marcada pela complexidade, pela simultaneidade de camadas sonoras e pelo diálogo entre ciência e arte. Além de uma obra premiada internacionalmente, é autor de importantes reflexões teóricas, como Música eletroacústica: história e estéticas (1996), consolidando-se como figura central na difusão e no desenvolvimento da música experimental no Brasil.
RESUMO
Flo Menezes inicia seu ensaio refletindo sobre a dificuldade de falar em “música” em tempos de indústria cultural³, onde muito do que se produz é marcado pela mediocridade e pela falta de propósito artístico. Para ele, a música deve ser compreendida como uma atividade especulativa, experimental e investigativa, que articula o novo e o velho em tensão criativa. Desde Pitágoras até a física contemporânea, sempre houve proximidade entre música, matemática e ciência. Como afirma Brian Greene: “Historicamente a música tem propiciado as melhores metáforas para quem quer entender as coisas cósmicas” (GREENE, 2001, p. 155, apud MENEZES, 2006, p. 448).
Menezes, porém, vai além da metáfora e defende que os laços entre música e ciência são profundos e estruturais, não apenas comparativos. Por isso, define a música especulativa — aquela que é radical, investigativa e criativa — como uma “matemática dos afetos” (MENEZES, 2006, p. 448). Ou seja, ela é simultaneamente cálculo e emoção, razão e intuição, invenção e experimentação.
A NOÇÃO DE “TRANSGRESSO”
Menezes introduz o conceito de transgresso, diferente de mera transgressão. Inspirando-se em Carl Dahlhaus⁴, ele aponta que, enquanto a política depende da eficácia imediata, a música pode gerar obras aparentemente estéreis que só frutificam no futuro (DAHLHAUS, 1978, apud MENEZES, 2006, p. 449). A ciência, por sua vez, admite o erro como via para descobertas, e a arte, sobretudo a música, transforma erros e desacertos em evoluções não-lineares, tal como galhos de uma árvore que florescem em direções distintas. A transgressão, portanto, não é ruptura gratuita, mas abertura de caminhos múltiplos e progressos quânticos (MENEZES, 2006, p. 450).
SIMULTANEIDADES E COMPLEXIDADE
O autor destaca que a música especulativa se distingue das músicas de entretenimento pela busca da complexidade e simultaneidade. Luciano Berio⁵, por exemplo, explorava a polifonia latente de uma única linha melódica. Essa multiplicidade remete ao “labirinto” da teoria das supercordas, onde o universo é tecido de cordas vibrantes multidimensionais (MENEZES, 2006, p. 452). Nesse sentido, a música maximalista é uma apologia da complexidade e da simultaneidade, contrapondo-se ao simplismo do minimalismo.
A PROBLEMÁTICA DA DECOMPOSIÇÃO DO SOM
Menezes explica que desde o “serialismo integral”⁶ houve a tendência de decompor os parâmetros do som (altura, duração, intensidade, timbre). Isso gerou ganhos de consciência estrutural, mas também riscos de desarticulação. Stockhausen, com sua noção de Dekomposition des Klanges, mostrou que a decomposição era necessária para uma posterior recomposição criativa (STOCKHAUSEN, 1978, apud MENEZES, 2006, p. 454). Assim, a dialética entre análise e síntese sonora é constitutiva da música eletroacústica.
CONTINUUM E DIRECIONALIDADE
Inspirado em Einstein, Menezes observa que espaço e tempo formam um continuum. Da mesma forma, na música, os atributos sonoros não são independentes, mas interdependentes, deslizando de um ao outro (ritmo se torna altura, altura se torna timbre). Essa percepção foi desenvolvida por Stockhausen em sua Unidade do Tempo Musical (MENEZES, 2006, p. 455). Para Menezes, portanto, a música não deve ser estática, mas direcional, refletindo o perpetuum mobile da física das partículas e da teoria das cordas (MENEZES, 2006, p. 457).
MÚSICA E SUPRESSÃO DO TEMPO
A complexidade da música maximalista gera uma experiência que pode suprimir a percepção linear do tempo. Messiaen⁷ já dizia que, no presente, quanto mais cheio de eventos for o tempo, mais curto ele parecerá; retrospectivamente, porém, quanto mais eventos, mais longo será lembrado (MESSIAEN, 1994, apud MENEZES, 2006, p. 459). Essa reflexão é complementada por Lévi-Strauss, para quem a música e o mito são “máquinas de suprimir o tempo” (LÉVI-STRAUSS, 2004, p. 35, apud MENEZES, 2006, p. 460). Assim, a música especulativa cria um paradoxo: no ato da escuta, o tempo parece suspenso; na memória, expande-se.
A PERFEIÇÃO INATINGÍVEL
Por fim, Menezes aproxima a música da física relativística ao afirmar que a luz plena (lux aeterna) é inatingível, pois nenhum corpo pode alcançar sua velocidade. Do mesmo modo, a perfeição absoluta em música é impossível, mas o processo criativo, os gestos musicais e as direções estéticas apontam para esse ideal. Citando o filósofo Anaxágoras, conclui: “Aquilo que se mostra é apenas um aspecto do invisível” (ANAXÁGORAS, 1966, p. 66, apud MENEZES, 2006, p. 462).
CONCLUSÃO
O texto de Menezes, portanto, constrói uma visão em que música e física se entrelaçam como formas de pensamento especulativo, ambas regidas pela complexidade, pela simultaneidade e pela busca de um infinito inatingível. A música maximalista é, nesse sentido, uma “matemática dos afetos”, que combina rigor estrutural com intensidade estética.
REFERÊNCIA:
MENEZES, Flo. A estonteante velocidade da música maximalista – Música e Física: elos e paralelos. In: _____. Música eletroacústica: história e estéticas. São Paulo: Edusp, 2006. p. 447-462.
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¹ A música eletroacústica é um género de música erudita que combina sons acústicos e eletrónicos, utilizando tecnologia de gravação, processamento de sinal e sintetizadores para criar peças musicais. Existem estilos principais, como a música acusmática (feita com sons gravados e manipulados) e a música eletrônica ao vivo (que envolve instrumentos eletrónicos e manipulação de som em tempo real). Cf: SIMAS, Carolina. Música eletroacústica: do erudito ao popular. ComCiência, Campinas, n. 116, 2010. Disponível em: https://comciencia.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-76542010000200004&lng=e. Acesso em: 4 set. 2025.
² Karlheinz Stockhausen (1928-2007) foi um proeminente compositor alemão e uma figura-chave na música contemporânea do século XX. Ele foi um pioneiro na música eletrônica e eletroacústica, criando obras fundamentais como Studie I e Studie II. Além disso, suas contribuições se estendem ao serialismo e à espacialização sonora, e ele foi uma das figuras de liderança na Escola de Darmstadt. Cf: STOCKHAUSEN, Karlheinz. In: Wikipédia: a enciclopédia livre. [S. l.], 6 set. 2025. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Karlheinz_Stockhausen. Acesso em: 6 set. 2025.
³ O conceito de indústria cultural foi desenvolvido pelos filósofos Theodor Adorno e Max Horkheimer, da Escola de Frankfurt, ele se refere à produção e difusão em massa de bens culturais que são transformados em mercadorias no sistema capitalista. Seu objetivo é gerar lucro através da padronização cultural, o que, segundo os autores, leva à homogeneização de culturas locais, à promoção do consumo e de valores individualistas, e à alienação dos indivíduos ao desestimular o pensamento crítico e a capacidade de julgamento independente. Cf: ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Tradução de Guido Antônio de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
⁴ Carl Dahlhaus (1928 - 1989) foi um musicólogo alemão e uma personalidade de grande notoriedade e relevância na história da música. Autor de vastíssima bibliografia (entre estas alguns verbetes para o Grove’s Dictionary) é considerado uma das maiores autoridades dentre os estudiosos que buscaram reunir música e filosofia, e seus escritos têm influenciado músicos e teóricos ao redor do mundo. Cf: CORRÊA, Antenor Ferreira. Dahlhaus e a análise de segunda ordem. Revista Eletrônica de Musicologia, Curitiba, v. 11, n. 6, 2007. Disponível em: http://www.rem.ufpr.br/_REM/REMv11/06/06-correa-dahlhaus.html. Acesso em: 6 set. 2025.
⁵ Luciano Berio (1925-2003) foi um compositor italiano do período do vanguardismo musical. Ele se destacou na música experimental, sendo conhecido por suas contribuições para a música eletroacústica e por usar a voz humana como instrumento principal em muitas de suas obras, como a série de peças Sequenze e a famosa Sinfonia. Cf: BERIO, Luciano. In: Wikipédia: a enciclopédia livre. [S. l.], 6 set. 2025. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Luciano_Berio. Acesso em: 6 set. 2025.
⁶ O serialismo integral é um método de composição musical que estende a organização serial do dodecafonismo (que se foca nas alturas) a todos os parâmetros sonoros, como a duração, dinâmica, timbre e ataque das notas.
⁷ Olivier Messiaen (1908 - 1992) foi um compositor e organista francês que revolucionou a escrita musical e foi uma das figuras mais influentes da música do século XX. Como professor e aluno do Conservatório de Paris, ele influenciou diversos compositores, como Pierre Boulez. Sua obra é caracterizada por uma profunda religiosidade, explorando novas sonoridades com base em seu conhecimento de ritmos indianos, canto de pássaros e a técnica de serialismo. Cf: CADERNO DE MÚSICA. Confira vida e obra de Olivier Messiaen no Caderno de Música. EBC Rádios, Brasília, 14 dez. 2018. Disponível em: https://radios.ebc.com.br/caderno-de-musica/2018/12/confira-vida-e-obra-de-olivier-messiaen-no-caderno-de-musica. Acesso em: 6 set. 2025.
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