Sobre o "Perfil-Desapegado" em tempos de criação algorítmica
Por Janilson Fialho
O desaparecimento do autor abre caminho para a lógica do "lucro anônimo". As corporações extraem valor de um patrimônio simbólico que não ajudaram a construir, mas do qual se beneficiam amplamente por causa da hospedagem no ambiente virtual. Mostra-se bastante urgente repensar os regimes de autoria, identidade e propriedade intelectual em tempos de criação algorítmica.
Podemos chamar esse fenômeno de “Perfil-Desapegado”, uma figura típica da era digital. Diferente do autor clássico, identificado pelo seu estilo, sua biografia e sua voz própria, o Perfil-Desapegado não reivindica mais a posse de sua criação. Ele alimenta a rede com textos, imagens, vídeos, comentários e memes sem esperar reconhecimento autoral, muitas vezes nem mesmo retorno econômico. Esse desapego nasce do funcionamento das redes sociais, em que a produção simbólica é constantemente diluída, remixada e reapropriada. Um meme, por exemplo, perde rapidamente seu autor original ao circular de grupo em grupo, sendo alterado, traduzido e recontextualizado até tornar-se parte de um repertório coletivo. O mesmo acontece com vídeos curtos, músicas remixadas ou até reflexões pessoais que viralizam sem crédito, transformando-se em propriedade de “ninguém e todos”.
Essa dinâmica pode ser analisada através da perspectiva de Roland Barthes, que já anunciava a “morte do autor” ao afirmar que o texto não é uma origem, mas um tecido de citações. Na Internet, essa morte ganha um aspecto mais radical: não apenas o autor é eclipsado, como também sua obra se torna matéria-prima para processos automáticos de coleta e recombinação algorítmica. O Perfil-Desapegado, portanto, é tanto um sintoma quanto uma exigência da era digital — pois sua produção simbólica só adquire relevância quando está pronta para ser desconectada de sua origem e absorvida por um fluxo anônimo de circulação.
Mas há aqui uma contradição. Enquanto indivíduos comuns são levados ao desapego, corporações se apropriam do mesmo conteúdo e o transformam em capital. O meme que circula livremente entre usuários pode ser monetizado em campanhas publicitárias; a música remixada pode ser usada para engajar plataformas de streaming; a frase viral pode ser apropriada por marcas. Essa lógica lembra o diagnóstico do filósofo Byung-Chul Han sobre a exploração na sociedade da transparência: todos participam, todos expõem, mas apenas alguns concentram os ganhos.
Assim, o Perfil-Desapegado revela uma mutação filosófica no próprio conceito de autoria: do sujeito criador que assina sua obra, passamos ao sujeito anônimo que entrega sua criatividade à rede. O dilema ético surge justamente quando percebemos que esse desprendimento individual sustenta um regime de acumulação concentrado e desigual.
Se olharmos para a história, percebemos que o Perfil-Desapegado não é uma invenção absolutamente nova, mas uma reatualização de formas antigas de criação coletiva. Antes da consolidação do conceito moderno de autor, sobretudo a partir do Renascimento e do Iluminismo, grande parte da cultura era anônima ou comunitária. O folclore, os cantos populares, os provérbios e os mitos eram transmitidos oralmente, sem que houvesse uma preocupação em registrar quem teria sido o “criador original”. A força dessas expressões não estava na assinatura individual, mas na circulação e transformação ao longo do tempo e do espaço.
Na Idade Média, por exemplo, as catedrais góticas eram obras coletivas. Artesãos, pedreiros, escultores e pintores trabalhavam durante décadas, às vezes séculos, sem que seus nomes fossem destacados. A obra pertencia à comunidade e à fé que a inspirava. Algo semelhante se dava com as canções trovadorescas, que se multiplicavam em versões e adaptações sem referência a uma autoria fixa. Nesse sentido, o Perfil-Desapegado digital recupera esse espírito: sua criação é destinada à circulação e não ao acúmulo de prestígio individual.
No entanto, há uma diferença crucial. Enquanto no passado o anonimato cultural estava ligado a uma comunidade de sentido — seja religiosa, popular ou local — hoje ele se inscreve numa comunidade algorítmica administrada por plataformas privadas. O que antes era memória coletiva se transforma em banco de dados; o que antes se transmitia por tradição, agora é processado por máquinas de aprendizado. A ausência de autoria, que outrora significava pertencimento comunitário, hoje significa extração de valor por parte das corporações digitais.
Essa tensão pode ser pensada também a partir de Michel Foucault, quando ele pergunta “O que é um autor?”. Para Foucault, o autor é uma função que organiza discursos, atribuindo-lhes valor e legitimidade. No ambiente digital, essa função se desfaz: a legitimidade não vem mais da assinatura, mas do número de compartilhamentos, curtidas e engajamentos. O Perfil-Desapegado é, nesse sentido, o oposto do “gênio romântico” que emergiu na modernidade, exaltado como criador absoluto. Aqui, a originalidade perde importância diante da capacidade de ser replicado.
Se quisermos um paralelo ainda mais radical, podemos lembrar das tradições místicas, como no budismo zen, em que a obra não é uma afirmação do ego, mas uma expressão do vazio e da impermanência. O Perfil-Desapegado, paradoxalmente, encarna essa dissolução do “eu” — mas não em busca de iluminação espiritual, e sim numa dinâmica onde a ausência de ego é explorada como recurso de mercado.
Assim, ao situarmos o Perfil-Desapegado no horizonte da história da cultura, percebemos que ele se inscreve em uma longa linhagem de anonimato e desapego, mas com uma torção contemporânea: sua lógica não é comunitária, mas corporativa. A criação anônima, que antes alimentava a memória e o imaginário coletivo, agora se converte em matéria-prima para plataformas digitais, que lucram com a desapropriação simbólica de milhões de usuários.
Diante desses paralelos, podemos dizer que o Perfil-Desapegado é uma espécie de autor pós-moderno, situado entre duas tradições: de um lado, herdeiro do anonimato cultural que atravessa o folclore, a arte medieval e a tradição oral; de outro, capturado pela engrenagem do capitalismo digital que transforma esse mesmo anonimato em fonte de lucro. Ele encarna a dissolução do “eu criador”, não como gesto comunitário, mas como efeito da lógica algorítmica das redes sociais, que valorizam mais a circulação do que a origem, mais o engajamento do que a assinatura.
Nesse sentido, o Perfil-Desapegado simboliza a contradição central de nossa época: ao mesmo tempo em que nos liberta da aura do “gênio romântico” e abre espaço para práticas criativas coletivas e fluidas, ele também nos aprisiona em um regime de lucro anônimo que concentra valor nas mãos de corporações. Como disse Walter Benjamin, a reprodutibilidade técnica pode democratizar a arte, mas também a submete a novas formas de controle. Hoje, o Perfil-Desapegado mostra como a promessa de liberdade criativa se converte em campo de exploração silenciosa, onde o desapego do indivíduo se torna combustível para a acumulação digital.
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