Manifesto primário sobre a Inteligência Artificial

Por Janilson Fialho

A Inteligência Artificial (IA) tem encantado muitas pessoas com sua capacidade de criar arte, e eu mesmo já a utilizei, ponderando sobre como os artistas poderiam aproveitá-la como ferramenta para criar suas obras. No entanto, minha opinião mudou; não vejo mais a IA como uma ferramenta artística no sentido tradicional. Para mim, o artista que a vê dessa forma pode ser caracterizado de duas maneiras: 1⁰) Incapacidade de aprender uma técnica artística: alguém que reconhece suas limitações técnicas, mas não deseja abandonar sua identidade artística. 2⁰) Preguiça e oportunismo: um artista que prefere terceirizar seu trabalho, aproveitando-se das capacidades da IA sem investir tempo e esforço em seu próprio desenvolvimento artístico. Ambos os perfis compartilham a tendência de terceirizar o trabalho criativo, o que levanta questões sobre a autenticidade e o valor da arte produzida com o auxílio da IA.

É impressionante como muitos exaltam — e digo isso ao perceber o fatalismo tecnológico que existe na exaltação que valida tudo no desenvolvimento da tecnologia — o trabalho que leva apenas alguns segundos em digitar certas palavras para que uma máquina crie uma arte, considerando-o maior do que o trabalho real de criar uma arte manualmente (entenda que incluo, sim, o uso de tecnologia nesse trabalho manual, mas apenas alinhado à técnica e à criatividade).

Trabalho e paciência de verdade, meus caros, não consistem em esperar que a máquina se aproxime da minha ideia. É crucial ressaltar uma coisa muito importante, inspirada no velho Kant: o único capaz de representar e conceber minha ideia de arte sou eu mesmo, e não outra pessoa. Portanto, trabalho e paciência realmente significam colocar de fato minha ideia em uma tela, levando o tempo que for necessário de acordo com a técnica que desenvolvi.

Esse fazer artístico está mais alinhado à ideia que concebi a priori. Portanto, o meu fazer — que vem exclusivamente de mim — se mostra mais próximo do meu desejo, e devemos considerar isso melhor do que esperar que a máquina (esse outro) se aproxime do que eu desejei ou do que eu constitui como ideia. Aliás, é importante ressaltar que o indivíduo que delega sua ideia ao outro não está na posição de fazer arte, ou seja, de ser realmente o artista criador; na verdade, esse indivíduo ocupa a posição de quem encomenda a arte, isto é, a posição de um "consumidor".

Isto é semelhante, por exemplo, que eu encomende uma obra de arte a um artista, especificando as características que desejo que ele inclua na obra, como cores, temas e estilos, mas mesmo com essas diretrizes detalhadas, o resultado será sempre algo aproximado da minha ideia, pois o artista a quem encomendei tem sua própria subjetividade, experiências e visões de mundo que inevitavelmente influenciarão sua interpretação do projeto, e sua própria concepção de ideia, que pode divergir ou complementar a minha, resultando em uma obra que, embora inspirada nas minhas especificações, terá um caráter único e pessoal mais próximo daquele que fez. Assim, de qualquer forma, o resultado da representação não será idêntico à minha ideia original, mas sim uma interpretação criativa e pessoal que reflete tanto as minhas diretrizes quanto a visão artística do criador.

O ato de fazer arte, ou seja, o tempo de trabalho de criação com técnica, é a constituição da devoção do gênio ao fazer nascer sua "vontade de expressão" na obra de arte. É da pura vontade de expressão que nasce a arte. A arte exala o sacrifício do artista no seu processo criativo. A vontade de expressão do gênio é o desejo de materializar no mundo a sua ideia.

Embora nenhum artista possa capturar plenamente a essência da ideia abstrata pura (ensaio sobre o que é arte, §6), o ato de criar é profundamente pessoal e enraizado na experiência do próprio criador. Quando um artista se inspira em uma ideia, ele está perseguindo uma visão interna que, embora possa ser vaga e intangível, é singularmente sua. Mesmo que a representação final seja imperfeita e não consiga capturar completamente a ideia original, o processo criativo é uma extensão direta da visão e da inspiração do artista. Portanto, a obra resultante, embora possa não ser idêntica à ideia abstrata, carrega consigo a essência e a intenção daquele que a concebeu. Nesse sentido, a criação artística é mais próxima da origem da ideia do que se fosse realizada por outra pessoa, pois reflete diretamente a visão, a inspiração e a luta interna do próprio artista para dar vida à sua concepção.

Contudo, se a IA é o artista que cria a arte, não há como o ser humano se posicionar como artista, pois sua indicação do que quer na arte não é a mesma coisa que "fazer arte". Quem vai fazer é a máquina, e o sujeito apenas deu indicações. Se assim fosse, isto é, se eu fornecesse as palavras para que a Inteligência Artificial criasse a arte e pensasse que sou o artista da obra — como muitos acreditam e desejam ser —, poderíamos afirmar que aquele que encomenda uma arte a um artista humano também é o artista da obra. Portanto, seguindo essa lógica, quem dá uma simples sugestão também teria participação na obra? Não nego o mérito das ideias e sugestões, mas elas devem ser vistas apenas como referências e não como quem produz a arte, pois uma sugestão não envolve outros aspectos do "fazer arte", como o tempo de produção e a técnica aplicada.

Assim, não há como o indivíduo se colocar como autor da obra gerada pela IA apenas porque escreveu as referências para ela; na verdade, ele permanece na posição de quem encomenda a arte, de quem a compra. Ele é o consumidor, tanto é que ele paga por essa encomenda, mas não percebe, visto que ao usar o aplicativo ou o programa ele acaba gerando lucro ao proprietário.

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