Pequeno Ensaio Filosófico: Entre a Crise e a Polêmica Contra o Nada (I, §4)
Livro I
Não sou o número de minha idade; não posso sê-lo. Afinal, este número faz parte da organização biopolítica estatal; ele não é algo que componha minha existência. Desse modo, o número de minha idade, aquele que corresponde ao calendário — outro sistema de controle cronológico do tempo, ou melhor, o sistema de contagem dos dias pelo ser humano — não representa realmente minha idade espiritual ou física.
Minha idade atual é afirmada por um sistema de controle de natalidade. Não é a minha idade, mas a idade que me foi dada por um sistema. Esse sistema marca minha vida em círculos anuais, ou seja, dentro de cada ano novo, em um dia específico de um certo mês, o número de minha idade mudará, ou ainda, seguirá para o número posterior. Assim, o número de minha idade, dentro de uma circularidade anual, seguirá de maneira ascendente até os limites de meu corpo ou para os infortúnios do destino.
Com esta introdução, questiono se minha idade é realmente aquela que se encontra em meus registros, por mais que a matemática e os dados do sistema mostrem o local, o dia, a hora e o ano em que nasci. O que pretendo, na verdade, é mostrar que esse número é uma abstração que apenas nos fornece controle ou referência sobre a natureza e a existência. Irei abordar aqui uma série de argumentos, apresentando as distinções entre a idade cronológica estabelecida pelo sistema de natalidade e a existência do corpo no tempo.
Mas, antes de adentrar nas reflexões, devemos entender que a biopolítica apresentada aqui é uma forma de “governança” da vida, como argumentou Michel Foucault em sua obra Em Defesa da Sociedade. Assim, a governança é uma forma de controle que busca regular e normalizar a vida humana por meio de mecanismos de poder que operam sobre os corpos e as mentes dos indivíduos. Dito isso, parto agora para minhas considerações.
A idade cronológica não representa, de maneira exata, o meu ou o teu estado de espírito. Minha afirmação propõe-se, neste momento, a repensar a relação entre “temporalidade” e “experiência humana”. À primeira vista, pode parecer que a idade é um indicador fiel do nosso estado de espírito, que a passagem do tempo é sinônimo de maturidade, sabedoria e resignação. No entanto, uma análise mais aprofundada revela que essa relação é muito mais complexa e ambígua.
A idade, como conceito cronológico, não é capaz de capturar a essência da experiência humana. Ela não pode medir a profundidade da nossa alma, a riqueza da nossa imaginação ou a intensidade da nossa paixão. A idade é apenas um número, um marcador temporal que não reflete necessariamente a nossa experiência, a nossa sabedoria ou a nossa capacidade de viver.
Além disso, a existência humana é marcada pela diversidade e pela complexidade. Somos seres únicos, com experiências, desejos e sonhos que não podem ser reduzidos a uma simples equação cronológica. A juventude não é necessariamente sinônimo de inexperiência ou de imaturidade, assim como a maturidade não é necessariamente sinônimo de sabedoria ou resignação. A idade — cronológica — não importa. O filósofo Epicuro nos diz que a experiência e, principalmente, a sabedoria podem ser adquiridas em qualquer idade, e a juventude pode ser uma fonte de energia, de criatividade e de paixão que não deve ser subestimada.
Assim, afirmo que a idade do meu ou do teu registro, de maneira alguma, representa realmente o nosso verdadeiro estado de espírito. A idade é apenas um número, uma medida representativa formal, ou um marcador temporal que não reflete necessariamente a vivência ou experiência do ser; ela não define nossa sabedoria ou nossa capacidade de viver. A “idade formal” (outra designação para a idade cronológica) não pode capturar nem definir, de maneira objetiva, a essência da nossa personalidade, a nossa criatividade ou a nossa capacidade de amar e de ser amado.
Agora, irei tratar dos conceitos de “maioridade” e “menoridade”, porque também são medidas biopolíticas geradoras de comportamentos e costumes éticos. Veja: a distinção entre maioridade e menoridade é uma construção social que tem sido utilizada para justificar uma série de práticas biopolíticas que regulamentam e controlam o comportamento humano na sociedade. No entanto, essa distinção é problemática, pois não leva em conta a complexidade e a diversidade da experiência humana em suas múltiplas faces sociais. Essas definições trazem contradições e variam de acordo com a perspectiva antropológica. Em outras palavras, a definição de maioridade e menoridade depende muito do contexto cultural, histórico e socioeconômico.
Podemos, primeiramente, dizer que há indivíduos maiores de idade que têm comportamento infantil, e há indivíduos menores de idade que, devido à sua realidade material escassa, por exemplo, tornam-se adultos muito cedo. Sendo assim, dependendo da cultura ou da estrutura socioeconômica, a definição de ser menor de idade pode variar. A infância, do modo como a conhecemos hoje, é uma definição muito recente.
A ideia de que a infância é uma fase da vida caracterizada por uma falta de responsabilidade e de maturidade é uma construção recente e ocidental. Como observou o historiador Philippe Ariès em sua obra L'enfant et la vie familiale sous l'Ancien Régime: “a infância, como a conhecemos hoje, é uma invenção do século XVII”. Isso significa que a forma como entendemos a infância e a adolescência é uma construção cultural e histórica, e não uma realidade universal.
A realidade das crianças e dos adolescentes em diferentes culturas e épocas é muito diversa. Por exemplo, as crianças britânicas do século XIX eram consideradas “miniadultos” e trabalhavam em fábricas, em condições precárias — podemos constatar essa realidade nos romances do escritor Charles Dickens.
Em outras culturas — predominantemente machistas e patriarcais —, meninas eram forçadas a se casar muito cedo com homens mais velhos. Isso mostra que a definição de maioridade e menoridade depende de um olhar atento ao contexto cultural e socioeconômico, pois só assim temos base para uma crítica fundamentada, evitando tropeços em uma verborragia moralista simplista.
Podemos desconsiderar a ideia, vinda do senso comum, de que a maioridade é sinônimo de maturidade e responsabilidade. Isso é uma ilusão. Como observou o filósofo alemão Peter Sloterdijk em Crítica da Razão Cínica: “a maturidade é uma forma de infantilidade que se esqueceu de si mesma”. Portanto, a maturidade não é uma fase da vida que se caracteriza por responsabilidade e equilíbrio, mas sim uma forma de infantilidade que se esqueceu de si. Ou melhor: o adulto apenas ignora que é uma criança crescida. Mas há outros adultos que ainda vivem como crianças. E, infelizmente, há adultos que nunca tiveram uma infância, pois, desde cedo, já precisaram ser adultos.
Agora, vejo minha face no registro e confiro minha idade. Ela realmente constata quem eu sou? Representa o meu estado de espírito ou minha condição física? Será que a aparência que consta em meu registro civil não está me enganando? O que diz essa aparência que vejo? Será que há um engano causado pela aparência ou pelo número que vejo?
A aparência versus o registro civil: um conflito que revela a complexidade da condição humana. A aparência — essa fachada que apresentamos ao mundo — pode ser enganosa, uma máscara que esconde a verdadeira essência do indivíduo. Já o registro civil — esse documento que oficializa nossa existência — pode ser visto como uma tentativa de capturar a realidade ou, melhor, de fixar a identidade do indivíduo. Mas, como disse anteriormente, esse número me foi dado por um sistema. Todavia, as duas coisas não pertencem a mim — nem minha aparência, nem minha idade registrada — porque minha aparência está em constante mudança e o número que corresponde à minha idade veio de um sistema civil.
Sobre a aparência: ela pode ser um engano, uma ilusão que nos leva a julgar as pessoas de forma superficial e apressada. Mas, necessariamente, a aparência é a forma como o outro me aparece. Por sermos seres sensíveis em relação ao mundo, nosso contato se dá pela aparência e não pela forma essencial que ele tem. Tenho aqui, então, um conflito — clássico na história da filosofia — entre ser e parecer. Farei uma exposição desse conflito estético-ontológico e mostrarei que a aparência é uma construção social, uma forma como os outros nos veem, mas não necessariamente a forma como realmente somos.
Na introdução de O Ser e o Nada, o filósofo Sartre tece elogios ao pensamento moderno por este ter tentado, ao longo da história da filosofia, desvencilhar o fenômeno daqueles dualismos que a ele eram atribuídos: “O pensamento moderno realizou progresso considerável ao reduzir o existente à série de aparições que o manifestam.” Segundo Sartre, os dualismos — tais como ato e potência, interior e exterior, aparência e númeno — apenas embaraçam a análise do fenômeno tal como ele se nos dá. Assim, chegamos à ideia de fenômeno como pode ser encontrada na fenomenologia de Husserl. Desse modo, a essência metafísica passou a ser referida, na modernidade, como sendo a fenomenologia.
O postulado básico da fenomenologia é a metafísica fenomenológica, isto é, voltada para o reconhecimento do ser-em-si dos fenômenos, portanto vinculada a uma noção de ser abstrata e a uma consciência transcendental. Apesar desse postulado metafísico, a fenomenologia, do modo como Sartre coloca em sua crítica, acaba por fazer com que o conhecimento fenomenológico se prenda demais aos sentidos e à aparência, levando-nos a pensar que não há um ser essencial a ser investigado no fenômeno. A modernidade — com Nietzsche, Marx, Feuerbach e Freud, principalmente — esmagou a essencialidade suprassensível com o materialismo; hoje, temos o parecer ditando a regra existencial, e essa regra esvazia a essência e o sentido dos entes, trazendo como consequência à cultura o esquecimento do ser. Mas o parecer não pode ser minha regra absoluta, principalmente nesta questão.
O registro civil, esse documento que oficializa a nossa existência para a sociedade, pode ser visto como uma tentativa de capturar a realidade, de fixar a identidade do indivíduo. No entanto, o registro civil não define a realidade nem acompanha nossas mudanças no fluir do tempo.
A vida biológica: nossa saúde molda nossa idade. Um corpo saudável ou com uma genética peculiar pode manter uma aparência jovial, contrastando com a idade registrada nos documentos. Isso revela que a experiência da idade não se limita à sua expressão numérica, mas é atravessada por fatores materiais, subjetivos e existenciais. A idade, enquanto categoria cronológica, é uma construção abstrata, útil para a organização social, mas incapaz de captar a complexidade da existência concreta. O corpo, por sua vez, é um campo de manifestação dessa complexidade: ele expressa marcas do tempo, mas também resistências ao tempo — pela vitalidade, pela disposição, pela energia que carrega. Assim, a saúde, que integra aspectos físicos, mentais e emocionais, torna-se um mediador fundamental entre o tempo vivido e o tempo percebido. Uma pessoa pode ter sessenta anos e, ainda assim, apresentar um corpo funcional e ativo como o de alguém com trinta; por outro lado, doenças crônicas, estresse e hábitos nocivos podem envelhecer precocemente um organismo jovem. Isso nos obriga a repensar a noção de “idade real”: será ela aquela que aparece no RG ou aquela que se inscreve silenciosamente nas células, nos músculos e na respiração? Nesse sentido, a vida biológica se impõe como uma dimensão concreta que desafia a lógica linear do tempo cronológico e convida à percepção da idade como fenômeno plural, fluido e atravessado pela condição existencial de cada ser.
Posso afirmar, a partir dessa perspectiva, que a vida biológica é um fenômeno complexo e que desafia nossas noções convencionais de tempo e idade. A saúde, em particular, é um fator que pode influenciar significativamente a nossa aparência e a nossa percepção visível da idade. Um corpo saudável pode causar a impressão de juventude em uma pessoa idosa, e um corpo fragilizado, por enfermidade ou sedentarismo, pode aparentar envelhecimento precoce em uma pessoa jovem. Assim, temos um contraste sensível entre o que é visto e o que é registrado. Isso nos leva a questionar: qual é a relação entre a vida biológica e a idade? É a idade que determina nossa saúde, ou é a saúde que determina nossa idade?
Essa questão nos remete à filosofia de Henri Bergson, que argumentou que o tempo não é uma medida objetiva, mas sim uma experiência subjetiva, influenciada por nossa percepção e memória. De acordo com Bergson, o tempo não é uma linha reta que pode ser medida com precisão, mas sim uma curva que se dobra e se torce conforme nossas experiências.
A saúde, nesse sentido, pode ser vista como um fator que molda nossa percepção do tempo e da idade. Um corpo saudável, ou um indivíduo com uma genética particular, pode gerar a impressão de estarmos diante de uma contradição entre dois tipos de tempo: o tempo-idade e o tempo-material.
O tempo registrado na idade (tempo-idade) difere do tempo do corpo material (tempo-material) porque o primeiro é uma medida objetiva, baseada nos anos vividos desde o nascimento. É uma medida artificial, utilizada para fins burocráticos, médicos e sociais. Já o tempo do corpo material é subjetivo, moldado pela experiência individual. Ele é afetado por fatores como genética, estilo de vida, nutrição e estresse, que determinam a chamada idade biológica.
A idade biológica é, portanto, uma medida que se baseia na condição física e funcional do corpo — e pode ser muito diferente da idade cronológica. Uma pessoa de 40 anos pode ter uma idade biológica de 30, se gozar de boa saúde; enquanto outra, também com 40 anos cronológicos, pode apresentar uma idade biológica de 50, caso esteja fragilizada física ou psicologicamente. Isso nos leva de novo à pergunta: é a saúde que determina a idade, ou é a idade que deveria determinar a saúde?
Essa reflexão também nos conduz à ontologia de Martin Heidegger, que em Ser e Tempo nos lembra que a existência humana é essencialmente marcada pela sua finitude e mortalidade. A idade, para Heidegger, é apenas uma das muitas formas pelas quais essa finitude se manifesta. Saúde, doença, alegria, tristeza — todos são modos de ser-no-mundo que influenciam nossa percepção da existência e, por conseguinte, da idade.
Eis aí um problema para o conceito heideggeriano de ser-para-a-morte: os órgãos de controle da biopolítica moderna impõem ao ser humano estimativas e limites estatísticos de vida. No entanto, o ser humano pode romper essas fronteiras impostas, ultrapassando as expectativas traçadas pelos dispositivos de poder.
O ser-para-a-morte destaca a inevitabilidade da morte, mas também nossa consciência sobre ela. A biopolítica, ao tentar normalizar e administrar a vida por meio de registros, censos, planos de saúde e estatísticas, reduz a existência a dados e previsões. Essa abordagem pode produzir uma forma de vida regrada por normas, expectativas e prazos — uma vida marcada por cronogramas impostos, onde a autonomia é restringida pelo calendário.
Essa contagem dos anos, longe de ser neutra, traz consigo a angústia e a ansiedade da finitude. A biopolítica transforma o tempo em instrumento de vigilância, e com isso, instala na vida cotidiana uma cultura da comparação, da competição e do medo. Em vez de cultivarmos a liberdade de ser, nos conformamos à idade esperada para certos comportamentos, profissões, aparências e até desejos. É nesse contexto que a liberdade existencial vai se tornando refém de uma cronologia autoritária.
E, diante de tudo isso, o que me resta da burocracia estatal que tenta controlar minha vida? Apenas uma coisa me interessa: o significado simbólico da festa de aniversário. Nessa celebração, o número biopolítico da idade perde sua rigidez estatística e ganha um valor simbólico, afetivo, até sagrado. Quando celebramos a vida — e não apenas o número — transformamos o dado frio em motivo de alegria, de partilha, de reencontro com o outro. Somos, nesse instante, homo ludens, o ser que celebra, que dança, que ri da contagem dos anos porque sabe que o tempo vivido não se mede em números, mas em intensidade, em presença, em afeto.
Assim, não é o número da idade que importa, mas a saúde do corpo e da alma. A verdadeira juventude ou maturidade está no modo como vivemos, e não na cifra que consta nos documentos. A idade pode ser apenas um dado, mas viver — isso sim — é um ato de liberdade, de resistência e de criação contínua de sentido.
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