A presença do mal em o Senhor dos Anéis: crítica a série do “Senhor dos Anéis – os anéis de poder”, por Janilson Fialho
A presença do mal em o Senhor dos Anéis: crítica a série do “Senhor dos Anéis – os anéis de poder”
Autor: Janilson Fialho
Ano: 2022
Há primeiramente de dizer que o
presente texto não é uma resenha detalhada sobre os episódios, na verdade, não
considero nem uma resenha, o foco que o texto trará aqui é apenas uma pequena
pontuação de alguns conceitos captados no episódio sem a devida preocupação de
contexto, porém, sendo assim, aqui será apenas abordar a ideia de mal na obra de
Tolkien como um todo.
O mal em O Senhor dos Anéis está ligado à
fraqueza da prudência perante o desejo, este é o ponto principal da história,
ou seja, a luta contra a corrupção do mal através da prudência. Nesse caso,
devemos dizer que o mal em O Senhor dos Anéis difere da filosofia de Epicuro,
por exemplo, mesmo este autor também tratando sobre esse tema, isto é,
abordando a tese sobre o desejo, aqui há uma diferença, pois o autor diz que o
desejo não é de todo mal, e assim deve ser aproveitado e controlado de maneira
prática pelo ser humano, portanto, ele não nega o desejo; entretanto, nesta
história baseada no legendário de Tolkien, vemos que o desejo acaba por entrar
em um campo metafísico do impulso proporcionado pelo mal, assim vemos algo além
do apenas humano.
A série O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder
tem como foco nos dois episódios apresentados até agora, a urgência de caçar e
por fim ao mal, e aqui temos como noção um mal maior, isto é, um
mal metafísico, ele não se apresenta por muito tempo como uma ameaça visível, e
ao aparecer ele está na forma decadente da natureza, e por último na forma de
um ser humano. Entretanto, cabe dizer primeiramente que o bem está
distante em Valinor, ou podemos chamar este lugar por meio de uma noção fácil
de imaginar, isto é, de Céu na perspectiva cristã, por já termos todo um
imaginário deste lugar, e, em contrapartida, neste lugar onde reside o bem, o
mal surgiu, mostrando ser inevitável a pureza do bem, porém, o mal não
sobrevive por muito tempo na presença do bem, por isso ele necessita se
distanciar, por isso a ideia de opostos é fácil de se pensar nesta dualidade
entre bem e mal, sem esta distância a noção de ambos seriam imperceptíveis;
contudo, para ter a noção de que o mal existe, é necessário o abandono
momentâneo do bem, portanto, o mal busca refúgio, se distancia o máximo que
pode, isto é, buscando moradia na assim chamada aqui como terra da
neutralidade, é nesta frágil localidade ideal que a corrupção da virtude
pode se manifestar como uma doença.
À terra da neutralidade seria neste contexto à
Terra-média, portanto, o mal se apodera deste lugar, assim como o bem o faz
também, porém, o bem não se faz tão presente em potência, não por abandono, mas
sim pela noção de presença, pois como é visto por alguns filósofos, o ser humano
é bom por natureza, porém, a corrupção da alma virtuosa cai do céu feito uma
estrela, e a corrupção do corpo nasce de dentro para fora igual um câncer no
subsolo da terra, ou seja, a manifestação do mal é perceptível pela lógica que
esta traz a destruição do corpo e alma. Podemos dizer que a corrupção do corpo
seria a decadência da saúde, e a decadência da alma seria o distanciamento da
virtude; entretanto, o que motivaria o distanciamento da virtude? Aqui cabe
voltarmos ao início do texto, onde é apontado um motivo, isto é, o desejo e a
sua falta de moderação, contudo, voltando ao filósofo Epicuro, ele traz a ideia
de que há uma forma de desejo que é inútil ao ser humano, e na série vemos isto
em um momento que um garoto guarda um artefato desconhecido, ou melhor, um
pedaço de espada, neste tipo de desejo de posse é evidente que o artefato
dispõe uma satisfação que contém um dano colateral ao corpo e alma. Contudo,
não é apenas nessas satisfações materiais que reside os danos colaterais, o mal
pode nascer do bem, como vimos antes, e como seria isto? Em tese, o bem existe
para procurar e extirpar o mal, entretanto, ao reduzirmos essa luta ao ser
humano, como seria enfrentar o mal sem se contaminar com ele? Como seria
enfrentar ele? Portanto, nesta busca há a probabilidade de nascer a corrupção
do mal dentro do bem idealizado pelo ser humano, assim a busca pode acabar
sendo motivada pelo egoísmo idealista, cujo propósito mesquinho possa somar
ainda mais para o mal, assim cabe um conselho neste contexto, um bem famoso do
filósofo Nietzsche:
“Quem combate monstruosidades deve
cuidar para que não se torne um monstro. E, se você olhar longamente para um
abismo, o abismo também olha para dentro de você”.
Portanto, a personagem da série, a “elfa”
Galadriel, pode se encaminhar a esta decadência virtuosa movida pelo desejo de
vingança contra Sauron, ou seja, contra o mal ela está disposta a mergulhar em
águas profundas arriscando tudo em nome da vingança que está disfarçada de bem.
Voltando a noção metafísica do mal, é
necessário mencionar o filósofo e teólogo da igreja católica, Santo Agostinho,
porque ele vai dizer que o mal se faz presente onde Deus não se faz presente,
portanto, trazendo isto ao legendário de Tolkien, Valinor está longe
geograficamente da Terra-média, mas, além disso, a influência de Valinor se faz
pouco presente na Terra-média, sendo assim, este último pode, e é, o lugar onde
o mal se fará presente como fruto da fraqueza humana ligado ao desejo e o
distanciamento de Deus ou das virtudes, portanto, esta concepção de Santo
Agostinho traz uma interpretação mais interior ao ser humano como causador da
maldade e afastamento de Deus, porém está é uma interpretação que pode ser mais
desenvolvida se pensarmos que, em O senhor dos anéis vemos claramente que a
corrupção pode nascer no ideal de bem, portanto, a maldade não é só fruto da
fraqueza humana, a maldade aqui corrompe o virtuoso em algum grau, pois como já
foi dito, o mal pode nascer do bem, sendo assim, o mal já conhece a natureza da
virtude, porém, é perceptível que o mal é mais fraco em essência por ser apenas
uma falha-desvirtuosa que nasceu do bem. Cabe dizer que à Terra-média, isto é,
à terra sem Deus, não significa que seja completamente má, ela é apenas um
terreno neutro, passivo tanto ao bem quanto ao mal em potência, e como foi dito
antes, só percebemos a ação do mal por meio da destruição, pois este é
antinatural a realidade e ao bem, e assim lembrando que o bem já é comum na
existência.
Uma cena que simboliza a passividade da
Terra-média é a queda de Sauron perto da ingênua Pé-peludo, porque esta
personagem tem o desejo de conhecer o mundo, de ir além; porém, cabe dizer que
é um desejo de curiosidade natural, o problema é a sua ingenuidade, também
natural, que de certa maneira é alimentada pela influência de Sauron, mesmo não
parecendo, ele já exerce uma influência na pequena Pé-pequeno, pois este
personagem é a representação do desejo desmedido. Entretanto, cabe se indagar
uma coisa sobre este personagem, quem sabe se o próprio Sauron é refém de sua
própria essência natural (natural em potência, é um termo melhor) de corrupção
do desejo, isto é, o seu próprio desejo em ser igual ao mestre Morgoth? Seria
Sauron refém do próprio poder? Este seria outro assunto que talvez deva ser
abordado depois. Cabe dizer também, e para encerrar, que os humanos que
serviram a Sauron não eram pessoas completamente más, elas foram seduzidas ao
mal, visto que o mal em potência se faz presente fisicamente em O Senhor dos
Anéis, assim o desvio de caráter que seria moderado acaba sendo potencializado.
(Janilson
Fialho, 2022)
Fonte:
O SENHOR dos
anéis: os anéis de poder. Diretor: Patrick Mckay e J. D. Payne. Local: Amazon
Prime Video, 2022.
Índice:
NIETZSCHE,
Friedrich. Além do bem e do mal: Prelúdio a uma filosofia do
futuro. Tradução: Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das
Letras, 1992.
EPICURO. Carta
sobre a felicidade (a Meneceu). Tradução e apresentação: Álvaro Lorencini e Enzo
Del Carratore. São Paulo: Editora UNESP, 2002.
AGOSTINHO, Santo. Confissões; De magistro.
Coleção “Os Pensadores” 2. ed. Tradução de J. Oliveira Santos, S. J.. e A.
Ambrosio de Pina, S. J. São Paulo : Abril Cultural, 1980.
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